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Brasília descrita no seu nascimento – Revista o Cruizeiro

400px_cp0247_05_55fonte: Revista O Cruzeiro 07 de  maio de 1960 www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro

José Amádio apresenta Brasília Kubitschek de Oliveira

AINDA bem que sempre acreditei em Brasília, pois vi muita gente com cara de bobo no Planalto Central.

Vermelho & Negro

O personagem de hoje, como estão percebendo os perspicazes leitores, é Brasília. Saibam que uma cidade é como gente. E se não fôr, passará a ser, pois tudo o que é belo é verdadeiro. Falarei não da Brasília que já nasceu adulta, não da capital da esperança, não do poema de concreto. Quero falar de uma Brasília brotinho, ainda inexperiente, ainda inculta, sem maquilagem – já deixando entrever a maravilhosa môça que será e ainda, no futuro, a imponente matrona. Brotinho descalço, os pés mergulhados na poeira vermelha, cabelos ao vento quase frio, olhos voltados, para o mundo. Uma quase-môça que está virando a cabeça de todos os que a vêem. Sisudos embaixadores, circunspectos representantes diplomáticos, graves observadores, alegres turistas – todos se apaixonam a jato pela Lolita do Planalto. Isso é verdade. Os estrangeiros, que nada têm a ver com nossa economia interna (pelo menos diretamente), exultam, elogiam, hipiurram. Esperavam seis vinténs e encontraram a lua. Quase ninguém acredita no que vê. Os edifícios quase levitando, o ocaso reverberando nas paredes de vidro. No meio da confusão há silêncio, há majestade, há qualquer coisa desabrochando com dignidade de rosa.
   Brasília é o século XXI.

Equipe & História

Não ousarei descrever Brasília. Tal tentativa já foi feita nesta edição pela equipe de O Cruzeiro, liderada por Ubiratan de Lemos – quilômetros de fotografias, toneladas de informações, tudo em ritmo de jornal diário, num atropêlo que para nós já é rotina. O que quero mostrar é o outro lado de Brasília como o vi e senti no histórico 21 de abril de 1960.

Um grande instante da nossa geração desesperada.

Comecemos por Juscelino cujo cartaz é na base de Frank Sinatra para cima. Jusça é o homem-show, a estrêla do momento, a grande vedete que os candangos literalmente adoram. Deus no céu e êle na poeira da cidade. Aonde chega é agarrado, beijado, vivado, aplaudido, puxado, sacudido. E não evita contatos diretos com o povo. A polícia isolava os candangos e os visitantes. Êstes abanavam. Juscelino os chamava para perto. Inteligente, desmoraliza os cordões de isolamento. E observando tôda aquela alegria, todo aquêle entusiasmo espontâneo, deve ter sentido estranhas e grandes emoções. Deve ter recordado… Há três anos e meio, quando chegou ao Planalto resolvido a construir o que talvez seja a cama de uma nova civilização, foi acusado de biruta, de visionário. Uma cidade no meio do mato quase virgem? Tadinho dêle! Dali, Juscelino deu sua arrancada para o sucesso e para a glória. Mineirão enérgico, cabeçudo, decidido, escavou as colinas, bufou, baixou a cabeça feito um Miúra e investiu contra as capas brancas da oposição, contra as capas cinzas do pessimismo, contra as capas vermelhas dos interêsses contrariados. Cada toureiro defendia seu próprio interêsse. Êle visava o interêsse da nação modorrenta. Era imperativo histórico que o Brasil mudasse sua capital. Investiu e só levantou a cabeça depois da arrancada final, no dia da inauguração.
   O olé desta vez foi para o touro.

Confusão & Justificação

Brasilia menina, catita, bossa nova, gerou alguma confusão. E daí? Ponham cem mil pessoas de súbito em Pôrto Alegre. Já pensaram que trapalhada? Lembram-se do Rio de Janeiro durante o Congresso Eucarístico? Sabem o que aconteceu em Londres durante as cerimônias da coroação? E então? Afinal, Juscelino construiu uma cidade e não um hotel para turistas. Quando há hóspede em casa, a vida rotineira muda de ritmo. Brasília não poderia acomodar cento e cinqüenta mil pessoas confortàvelmente. Já sabiam disso os que para lá se dirigiram. A turma do contra, os comodistas, os eternos inconformados reclamaram. Mas o chôro é livre neste cálido país. De qualquer modo, deputado dormindo na rua, em cama de jornal, é conversa a crédito. Vi muitos acampamentos e barracas nas proximidades do lago. Coisa bucólica. De um modo geral, tudo correu bem.
   Ou quase.

Pílulas & Pugilato

Aconteceram fatos pitorescos à margem das solenidades. Querem ver?

 O hotel principal foi tomado pelo Govêrno para hospedar seus convidados. Só aos hóspedes eram servidas refeições. Isso gerou algumas escaramuças mais ou menos campais.

 Governadores, senadores, deputados, esperavam mesa de pé. Não havia a possibilidade brasileira de se dar um jeitinho, porque sentados estavam outros governadores, senadores, deputados.

 Aconteceu um quase pugilato entre o Deputado Vasconcelos Costa e um desconhecido. Motivo: uma cadeira.

 Drault Ernany Filho viu uma cadeira desocupada no bar. Perguntou ao ocupante da mesa:
– Pode emprestar?
– Não dou essa cadeira nem por dez mil cruzeiros.
Não deu.

Metralhadora & Travesseiro

 Um brigadeiro chegou ao hotel. Haviam ocupado seu apartamento. Protestou, discutiu, retirou-se furioso, retornou com um ordenança armado de metralhadora.
Corre-corre geral.
Ficou com o apartamento.

 Figura de prestígio na República mandou um avião ao Rio buscar travesseiros e cabides. Cabide era um dos objetos mais disputados na Novacap.

 Um baiano explicava:
– Brasília é a Novacap; Rio é a Velhacap; Salvador é a Primacap.

 Um deputado cearense encontrou seu apartamento sem mobília. Não teve dúvidas: saiu para a rua de revólver em punho, atacou um caminhão de mudanças da Cofap.
Requisitou os móveis.

 Certo governador resolveu levar uma conhecida para os festejos. De súbito, sua espôsa irrompeu no hotel.
Já pensaram?

Peito & Guitarra

Brasília era uma necessidade. Um brotinho que Nabokovs pátrios aguardavam há séculos. Se Juscelino não a tivesse construído no peito e na raça, até hoje seria realidade de pergaminho. Que se ponha a guitarra a funcionar, desde que o papel-moeda se transforme em riqueza. As abobrinhas geraram uma cidade. Em pouco a cidade estará gerando abobrinhas.
   Da côr do dólar.

Pompa & Emoção

O edifício da Câmara e do Senado é de imponência faraônica, para citar os articulistas do momento. Tudo na base do cristal e do mármore. Cristais, não identifiquei, mas no mármore andei escorregando. Quando Juscelino ingressou ali, para a sessão solene conjunta, foi aplaudido de pé durante três minutos. Oposição, situação, assistência, funcionários, jornalistas, radialistas, cinegrafistas – grandiosa sinfonia de aplausos glorificando um gladiador. Sorrindo e abanando, visìvelmente emocionado, Juscelino via cumprida mais uma de suas metas. Lembrei-me da frase de Guillaumet que se perdeu nos Andes e sobreviveu:
– O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer.
   Há instantes de glória.

Euforia & Resmungos

 De um modo geral, os parlamentares estavam eufóricos. Os mudancistas, radiantes. Os do contra, meio sôbre o sem-jeito. Uns raros insistiam no absurdo da mudança em ritmo acelerado.

 A sessão foi aberta pelo Vice-Presidente João Goulart. Discurso rápido e bem feito. Quando citou Getúlio Vargas, aplaudiram. Falaram ainda o Senador Filinto Müller e o Deputado Ranieri Mazzilli.
Foi a primeira vez que Juscelino compareceu ao Congresso como Presidente da República.

 O Cardeal Cerejeira chegou atrasado.

 As cadeiras do plenário são fixas para impedir que os deputados voltem as costas à mesa durante os trabalhos.

 Um deputado queixava-se da iluminação:
– Depois de ficarmos quatro horas olhando para aquelas faixas de luz fluorescente, por detrás da mesa, elas ficarão para sempre na nossa retina. Como é que pode?

 No salão de recepções, Juscelino foi assaltado pelos caçadores de autógrafos.
Estava feliz.

Modéstia & Caçada

 Um homem de blusão quis entrar no edifício do Congresso. Não tinha convite. Foi barrado. Quando se retirava calmamente, alguém gritou:
– É o Oscar Niemeyer.
O soldado que o barrara perfilou-se. Fêz continência. Niemeyer entrou.

 Quase ninguém falou em Lúcio Costa, autor do plano pilôto de Brasília. Por quê?

 Durante a missa solene, o Conde Carl Douglas, embaixador da Suécia, meteu o pé num buraco.
Torceu-o diplomàticamente.

 O primeiro caçador de Brasília foi o Deputado Breno da Silveira. Resultado da caçada (em seu sítio): um tucano.

 Barbosa de Souza, escurinho de alma alva que trabalha no laboratório fotográfico de O Cruzeiro, conseguiu aproximar-se de Juscelino, na rua, e disse:
– Quero apertar a sua mão duas vêzes.
– Por quê? – perguntou o Presidente.
– Uma em meu nome e outra em nome do Embaixador Assis Chateaubriand.
   Deu os dois apertos.

Ausência & Poeira

 Assis Chateaubriand foi o grande ausente. Um dos homens que mais têm lutado contra o subdesenvolvimento dêste país, identificou-se com Juscelino. Ambos têm olhado na mesma direção. Brasília seria um amplo palco para os seus gestos amplos. O próprio Presidente Kubitschek disse a um amigo:
– Está faltando alguém aqui.
O amigo adivinhou:
– Já sei. Chateaubriand.
– Isso mesmo.

 O cartaz n.º dois de Brasília chama-se Israel Pinheiro.

 As senhoras que iriam à recepção no Palácio dos Despachos estavam aflitas com a falta de cabeleireiros e de ferros de engomar. Mas tôdas apareceram bem penteadas e bem passadas.

 Na recepção, muitos rapazes queriam aparecer em fotos ao lado das meninas Kubitschek. Promoção?

 A turma dançou pouco. Comeu e bebeu muito.

 Juscelino foi surpreendido várias vêzes, durante as solenidades, com os olhos úmidos.
– Poeira – justificava-se.

Princípio & Fim

Em 1808, no Correio Braziliense (editado em Londres) Hipólito José da Costa Furtado de Menezes já pugnava pela mudança da capital brasileira. Em 1821, José Bonifácio insistia no assunto. São João Bosco anteviu a criação de Brasília. Em 1853, o Senador Varnhagen fêz sua investida. Floriano enviou ao Planalto a famosa Missão Cruls. Vargas e Dutra também agitaram a questão.
JK lançou a pá de cal.

Guerra & Paz

Se depois disso tudo você não acredita em Brasília, dê uma chegadinha lá. Sem compromisso. Mas trate de ir segurando o queixo. Declaro com certa solenidade que Brasília é um milagre. E observe-se que não sou ufanista, não sou governista, não sou coisa nenhuma. Apenas uso a cabeça de quando em quando. Os Estados Unidos e a Rússia votam verbas fabulosas todos os anos para a construção de instrumentos de guerra. Ninguém reclama. A Inglaterra, a França, a China – tôdas as nações queimam tesouros visando destruição. Aplaude-se ou admite-se. Surge um homem querendo construir, querendo realizar algo quase inédito na história da humanidade, projetando definitivamente o Brasil no mundo, colocando-o num primeiro plano de convivência internacional – e se combate êsse homem.
   Que é que há?

Volta & Voto

Juscelino foi entrevistado coletivamente.
Perguntaram-lhe:
– O senhor aceita sua candidatura para 1965?
Riu. Abriu os braços. Respondeu:
– Como posso aceitar o que ainda não me foi oferecido?
Uma coisa é certa: se fôr candidato, terá o meu voto. Consciente.
E está encerrado o assunto.

Juscelino Kubitschek

Hoje, dia 12 de setembro comemorasse o aniversário de nascimento da maior personalidade do Brasil, em especial para os Brasilienses. Com determinação e corajem Juscelino Kubtschek, cumpriu a risca seu plano de governo de fazer o Brasil evoluir “50 anos em 5”. Fica registrado nesse blog a nossa homenagem!

Juscelino Kubitschek de Oliveira (Diamantina, 12 de setembro de 1902Resende, 22 de agosto de 1976) foi um médico, militar e político brasileiro. Conhecido como JK (lê-se jota-cá), foi prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas Gerais e presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Foi o primeiro presidente do Brasil a nascer no século XX. Juscelino foi também o último mineiro a ser eleito presidente do Brasil pelo voto direto.

Foi casado com Sarah Kubitschek, pai de Márcia Kubitschek e de Maria Estela Kubitschek. Com estilo de governo inovador na política brasileira até então, Juscelino construiu em torno de si uma aura de simpatia e confiança entre os brasileiros.

Foi o responsável pela construção da nova capital federal, Brasília, executando assim o antigo projeto, já previsto em 3 constituições brasileiras, da mudança da capital para promover o desenvolvimento do interior e a integração do país. Durante todo o seu governo, o Brasil viveu um período de desenvolvimento econômico e estabilidade política. (fonte: wikipedia)