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Cavalos de Tróia – Artigo sobre a Praça da Soberania

Eu particulamente acho que esse projeto deve ser bastante discutido e submetido a vontade da população. Não podemos simplesmente dizer amém a tudo que o Oscar Niemeyer faz.

fonte: Correio Braziliense 28/1/09

Gustavo Lins Ribeiro, professor titular e diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília

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O envolvimento de Oscar Niemeyer por meio século com o projeto de Brasília, cidade em que viveu apenas durante a construção, certamente o qualifica para intervir no seu espaço. Mas, por mais ilustres que sejam, nenhuma cidade precisa de proprietários do seu destino. A configuração espacial do Plano Piloto já é regida por várias leis. Assim, não cabem excepcionalismos, mesmo em se tratando do distinguido arquiteto.

Na verdade, Brasília proporcionou a Niemeyer uma oportunidade que nenhum outro arquiteto ou artista, nem mesmo Michelangelo, teve. É só pensar em vários dos muitos marcantes e imponentes edifícios que levam a sua assinatura tanto na Esplanada dos Ministérios (o Museu da República, o Teatro Nacional, a Catedral, o Palácio do Itamaraty), quanto na Praça dos Três Poderes (o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e a sede do SupremoTribunal Federal), ou em outras áreas (o Quartel General do Exército, a sede do Superior Tribunal de Justiça, o Palácio da Alvorada, a Procuradoria Geral da República, o Centro de Treinamento do Banco do Brasil).

É tamanha a identidade que se faz entre Niemeyer e Brasília que, com frequência, se diz que ele criou a cidade, em um verdadeiro esquecimento da autoria do Plano Piloto, de Lucio Costa, tombado em 1987. De fato, é mais fácil perceber imediatamente a beleza da arquitetura de Niemeyer do que entender a lógica, igualmente modernista mas bem mais abstrata, do planejamento urbano da cidade. Também é mais fácil preservar edifícios do que um plano que, a rigor, vem sendo adulterado paulatinamente de diversas maneiras.

A última proposta de intervenção urbanística e arquitetônica de Niemeyer para a Esplanada dos Ministérios foi divulgada pelo Correio Braziliense, em sua edição de 10 de janeiro de 2009. Infelizmente, a chamada Praça da Soberania, situada no canteiro central do Eixo Monumental, a poucos metros da rodoviária, representa, se implementada, uma violação do tombamento do Plano Piloto.

É sabido que a Esplanada se inspira nos Champs-Elysées, de Paris, e no mall, de Washington. Foi pensada por Lucio Costa como uma grande perspectiva que, começando na rodoviária, é coroada, simbolicamente, como em Washington, com o edifício do Congresso Nacional que deve, sobranceiro, reinar, único, sobre todos os demais. Tanto que é proibido construir em todo o Plano Piloto qualquer edificação mais alta que o Congresso, símbolo maior do poder do povo em uma democracia republicana.

Um monumento de 100 metros de altura, como o proposto pelo arquiteto, mais um edifício destinado a ser um Memorial dos Ex-Presidentes, certamente quebrarão radicalmente a perspectiva idealizada originalmente. Ao mesmo tempo, é duvidoso pretender colocar, simbolicamente, a “soberania” acima do “povo”. Ainda recordamos a construção, durante a ditadura militar, do mastro da bandeira na Praça dos Três Poderes, a simbolizar a pátria, um valor acima do “povo”.

Nada contra museus e monumentos, na verdade a cidade necessita de muitos, face à ainda precária oferta existente mesmo diante de um turismo cívico, inclusive popular, em crescimento. A Praça da Soberania foi pensada pelo Governo do Distrito Federal como uma forma de presentear a cidade no seu aniversário de 50 anos, comemorando sua importância política, arquitetônica e urbanística. Paradoxalmente, termina se transformando não apenas em um desrespeito ao tombamento do Plano Piloto, mas, face ao constante estado precário de muitos dos monumentos e atrações turísticas de nossa cidade (basta mencionar a Torre de Televisão, a Catedral e o Museu de Arte de Brasília), torna-se também a confirmação de que mais vale construir novas e impressionantes obras do que manter o patrimônio existente.

O que se espera de Oscar Niemeyer e dos governantes de Brasília, como atores importantes para a preservação da cidade, é que façam propostas que não a desfigurem e que, ao contrário, contribuam para a defesa e preservação do seu tombamento. É compreensível o entusiasmo pela proposta arquitetônica que bem pode ser construída em outra área, mas, presentes como a Praça da Soberania são verdadeiros cavalos de Tróia que abrem caminho para uma triste derrota da história de Brasília.

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Brasília descrita no seu nascimento – Revista o Cruizeiro

400px_cp0247_05_55fonte: Revista O Cruzeiro 07 de  maio de 1960 www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro

José Amádio apresenta Brasília Kubitschek de Oliveira

AINDA bem que sempre acreditei em Brasília, pois vi muita gente com cara de bobo no Planalto Central.

Vermelho & Negro

O personagem de hoje, como estão percebendo os perspicazes leitores, é Brasília. Saibam que uma cidade é como gente. E se não fôr, passará a ser, pois tudo o que é belo é verdadeiro. Falarei não da Brasília que já nasceu adulta, não da capital da esperança, não do poema de concreto. Quero falar de uma Brasília brotinho, ainda inexperiente, ainda inculta, sem maquilagem – já deixando entrever a maravilhosa môça que será e ainda, no futuro, a imponente matrona. Brotinho descalço, os pés mergulhados na poeira vermelha, cabelos ao vento quase frio, olhos voltados, para o mundo. Uma quase-môça que está virando a cabeça de todos os que a vêem. Sisudos embaixadores, circunspectos representantes diplomáticos, graves observadores, alegres turistas – todos se apaixonam a jato pela Lolita do Planalto. Isso é verdade. Os estrangeiros, que nada têm a ver com nossa economia interna (pelo menos diretamente), exultam, elogiam, hipiurram. Esperavam seis vinténs e encontraram a lua. Quase ninguém acredita no que vê. Os edifícios quase levitando, o ocaso reverberando nas paredes de vidro. No meio da confusão há silêncio, há majestade, há qualquer coisa desabrochando com dignidade de rosa.
   Brasília é o século XXI.

Equipe & História

Não ousarei descrever Brasília. Tal tentativa já foi feita nesta edição pela equipe de O Cruzeiro, liderada por Ubiratan de Lemos – quilômetros de fotografias, toneladas de informações, tudo em ritmo de jornal diário, num atropêlo que para nós já é rotina. O que quero mostrar é o outro lado de Brasília como o vi e senti no histórico 21 de abril de 1960.

Um grande instante da nossa geração desesperada.

Comecemos por Juscelino cujo cartaz é na base de Frank Sinatra para cima. Jusça é o homem-show, a estrêla do momento, a grande vedete que os candangos literalmente adoram. Deus no céu e êle na poeira da cidade. Aonde chega é agarrado, beijado, vivado, aplaudido, puxado, sacudido. E não evita contatos diretos com o povo. A polícia isolava os candangos e os visitantes. Êstes abanavam. Juscelino os chamava para perto. Inteligente, desmoraliza os cordões de isolamento. E observando tôda aquela alegria, todo aquêle entusiasmo espontâneo, deve ter sentido estranhas e grandes emoções. Deve ter recordado… Há três anos e meio, quando chegou ao Planalto resolvido a construir o que talvez seja a cama de uma nova civilização, foi acusado de biruta, de visionário. Uma cidade no meio do mato quase virgem? Tadinho dêle! Dali, Juscelino deu sua arrancada para o sucesso e para a glória. Mineirão enérgico, cabeçudo, decidido, escavou as colinas, bufou, baixou a cabeça feito um Miúra e investiu contra as capas brancas da oposição, contra as capas cinzas do pessimismo, contra as capas vermelhas dos interêsses contrariados. Cada toureiro defendia seu próprio interêsse. Êle visava o interêsse da nação modorrenta. Era imperativo histórico que o Brasil mudasse sua capital. Investiu e só levantou a cabeça depois da arrancada final, no dia da inauguração.
   O olé desta vez foi para o touro.

Confusão & Justificação

Brasilia menina, catita, bossa nova, gerou alguma confusão. E daí? Ponham cem mil pessoas de súbito em Pôrto Alegre. Já pensaram que trapalhada? Lembram-se do Rio de Janeiro durante o Congresso Eucarístico? Sabem o que aconteceu em Londres durante as cerimônias da coroação? E então? Afinal, Juscelino construiu uma cidade e não um hotel para turistas. Quando há hóspede em casa, a vida rotineira muda de ritmo. Brasília não poderia acomodar cento e cinqüenta mil pessoas confortàvelmente. Já sabiam disso os que para lá se dirigiram. A turma do contra, os comodistas, os eternos inconformados reclamaram. Mas o chôro é livre neste cálido país. De qualquer modo, deputado dormindo na rua, em cama de jornal, é conversa a crédito. Vi muitos acampamentos e barracas nas proximidades do lago. Coisa bucólica. De um modo geral, tudo correu bem.
   Ou quase.

Pílulas & Pugilato

Aconteceram fatos pitorescos à margem das solenidades. Querem ver?

 O hotel principal foi tomado pelo Govêrno para hospedar seus convidados. Só aos hóspedes eram servidas refeições. Isso gerou algumas escaramuças mais ou menos campais.

 Governadores, senadores, deputados, esperavam mesa de pé. Não havia a possibilidade brasileira de se dar um jeitinho, porque sentados estavam outros governadores, senadores, deputados.

 Aconteceu um quase pugilato entre o Deputado Vasconcelos Costa e um desconhecido. Motivo: uma cadeira.

 Drault Ernany Filho viu uma cadeira desocupada no bar. Perguntou ao ocupante da mesa:
– Pode emprestar?
– Não dou essa cadeira nem por dez mil cruzeiros.
Não deu.

Metralhadora & Travesseiro

 Um brigadeiro chegou ao hotel. Haviam ocupado seu apartamento. Protestou, discutiu, retirou-se furioso, retornou com um ordenança armado de metralhadora.
Corre-corre geral.
Ficou com o apartamento.

 Figura de prestígio na República mandou um avião ao Rio buscar travesseiros e cabides. Cabide era um dos objetos mais disputados na Novacap.

 Um baiano explicava:
– Brasília é a Novacap; Rio é a Velhacap; Salvador é a Primacap.

 Um deputado cearense encontrou seu apartamento sem mobília. Não teve dúvidas: saiu para a rua de revólver em punho, atacou um caminhão de mudanças da Cofap.
Requisitou os móveis.

 Certo governador resolveu levar uma conhecida para os festejos. De súbito, sua espôsa irrompeu no hotel.
Já pensaram?

Peito & Guitarra

Brasília era uma necessidade. Um brotinho que Nabokovs pátrios aguardavam há séculos. Se Juscelino não a tivesse construído no peito e na raça, até hoje seria realidade de pergaminho. Que se ponha a guitarra a funcionar, desde que o papel-moeda se transforme em riqueza. As abobrinhas geraram uma cidade. Em pouco a cidade estará gerando abobrinhas.
   Da côr do dólar.

Pompa & Emoção

O edifício da Câmara e do Senado é de imponência faraônica, para citar os articulistas do momento. Tudo na base do cristal e do mármore. Cristais, não identifiquei, mas no mármore andei escorregando. Quando Juscelino ingressou ali, para a sessão solene conjunta, foi aplaudido de pé durante três minutos. Oposição, situação, assistência, funcionários, jornalistas, radialistas, cinegrafistas – grandiosa sinfonia de aplausos glorificando um gladiador. Sorrindo e abanando, visìvelmente emocionado, Juscelino via cumprida mais uma de suas metas. Lembrei-me da frase de Guillaumet que se perdeu nos Andes e sobreviveu:
– O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer.
   Há instantes de glória.

Euforia & Resmungos

 De um modo geral, os parlamentares estavam eufóricos. Os mudancistas, radiantes. Os do contra, meio sôbre o sem-jeito. Uns raros insistiam no absurdo da mudança em ritmo acelerado.

 A sessão foi aberta pelo Vice-Presidente João Goulart. Discurso rápido e bem feito. Quando citou Getúlio Vargas, aplaudiram. Falaram ainda o Senador Filinto Müller e o Deputado Ranieri Mazzilli.
Foi a primeira vez que Juscelino compareceu ao Congresso como Presidente da República.

 O Cardeal Cerejeira chegou atrasado.

 As cadeiras do plenário são fixas para impedir que os deputados voltem as costas à mesa durante os trabalhos.

 Um deputado queixava-se da iluminação:
– Depois de ficarmos quatro horas olhando para aquelas faixas de luz fluorescente, por detrás da mesa, elas ficarão para sempre na nossa retina. Como é que pode?

 No salão de recepções, Juscelino foi assaltado pelos caçadores de autógrafos.
Estava feliz.

Modéstia & Caçada

 Um homem de blusão quis entrar no edifício do Congresso. Não tinha convite. Foi barrado. Quando se retirava calmamente, alguém gritou:
– É o Oscar Niemeyer.
O soldado que o barrara perfilou-se. Fêz continência. Niemeyer entrou.

 Quase ninguém falou em Lúcio Costa, autor do plano pilôto de Brasília. Por quê?

 Durante a missa solene, o Conde Carl Douglas, embaixador da Suécia, meteu o pé num buraco.
Torceu-o diplomàticamente.

 O primeiro caçador de Brasília foi o Deputado Breno da Silveira. Resultado da caçada (em seu sítio): um tucano.

 Barbosa de Souza, escurinho de alma alva que trabalha no laboratório fotográfico de O Cruzeiro, conseguiu aproximar-se de Juscelino, na rua, e disse:
– Quero apertar a sua mão duas vêzes.
– Por quê? – perguntou o Presidente.
– Uma em meu nome e outra em nome do Embaixador Assis Chateaubriand.
   Deu os dois apertos.

Ausência & Poeira

 Assis Chateaubriand foi o grande ausente. Um dos homens que mais têm lutado contra o subdesenvolvimento dêste país, identificou-se com Juscelino. Ambos têm olhado na mesma direção. Brasília seria um amplo palco para os seus gestos amplos. O próprio Presidente Kubitschek disse a um amigo:
– Está faltando alguém aqui.
O amigo adivinhou:
– Já sei. Chateaubriand.
– Isso mesmo.

 O cartaz n.º dois de Brasília chama-se Israel Pinheiro.

 As senhoras que iriam à recepção no Palácio dos Despachos estavam aflitas com a falta de cabeleireiros e de ferros de engomar. Mas tôdas apareceram bem penteadas e bem passadas.

 Na recepção, muitos rapazes queriam aparecer em fotos ao lado das meninas Kubitschek. Promoção?

 A turma dançou pouco. Comeu e bebeu muito.

 Juscelino foi surpreendido várias vêzes, durante as solenidades, com os olhos úmidos.
– Poeira – justificava-se.

Princípio & Fim

Em 1808, no Correio Braziliense (editado em Londres) Hipólito José da Costa Furtado de Menezes já pugnava pela mudança da capital brasileira. Em 1821, José Bonifácio insistia no assunto. São João Bosco anteviu a criação de Brasília. Em 1853, o Senador Varnhagen fêz sua investida. Floriano enviou ao Planalto a famosa Missão Cruls. Vargas e Dutra também agitaram a questão.
JK lançou a pá de cal.

Guerra & Paz

Se depois disso tudo você não acredita em Brasília, dê uma chegadinha lá. Sem compromisso. Mas trate de ir segurando o queixo. Declaro com certa solenidade que Brasília é um milagre. E observe-se que não sou ufanista, não sou governista, não sou coisa nenhuma. Apenas uso a cabeça de quando em quando. Os Estados Unidos e a Rússia votam verbas fabulosas todos os anos para a construção de instrumentos de guerra. Ninguém reclama. A Inglaterra, a França, a China – tôdas as nações queimam tesouros visando destruição. Aplaude-se ou admite-se. Surge um homem querendo construir, querendo realizar algo quase inédito na história da humanidade, projetando definitivamente o Brasil no mundo, colocando-o num primeiro plano de convivência internacional – e se combate êsse homem.
   Que é que há?

Volta & Voto

Juscelino foi entrevistado coletivamente.
Perguntaram-lhe:
– O senhor aceita sua candidatura para 1965?
Riu. Abriu os braços. Respondeu:
– Como posso aceitar o que ainda não me foi oferecido?
Uma coisa é certa: se fôr candidato, terá o meu voto. Consciente.
E está encerrado o assunto.

O Homem que odeia Brasília

Li hoje no jornal. Infelizmente, as vezes,  encontramos pessoas nesse nível, mas não me canso de valorizar e exaltar essa cidade. Brasília!!!!

fonte: Correio Braziliense 18/12/08

O HOMEM QUE ODEIA BRASÍLIA (Sérgio Maggio)

 

Conheci um homem que odeia Brasília. Nunca tinha estado tão perto de uma pessoa que cultivasse tanto desprezo a esta cidade. De certo, já tinha testemunhado gente com ressalva a este lugar, mas eram senões cercados por reserva de carinho. Esse senhor, funcionário público de carreira, tem asco de onde dorme e acorda desde que foi obrigatoriamente transferido por chefe que o desprezava. Diz que recebeu como “castigo” o passaporte para o cerrado. Em qualquer oportunidade, parece que ele se aproveita para descer o malho. Conheci-o na fila de supermercado.

– Aqui, as pessoas mal se cumprimentam. Ninguém responde ao seu “bom-dia”. Nunca vi a cara do meu vizinho. As ruas são desertas. Não há vida. Todos só pensam em dinheiro. Querem comprar o seu apartamento de um milhão. Fim de semana, pegam o avião e dão uma banana para esse monte de concreto, que algum louco disse que é patrimônio da humanidade…

Era uma fala veloz, sem pausas e com palavras que se atropelavam.

– Devo ter sido um nazista em outra encarnação. Uma pessoa má, assassino em série, esquartejador de mocinhas, monstro sem escrúpulos. Estou pagando todos os pecados. Preferia estam em Sergipe (sobrou até pro pequeno e acolhedor estado nordestino). Aqui, não tiro proveito de nada. Não há cultura, vida própria, folclore, história, humanidade.

Os olhos do homem inflavam nessa hora. Pareciam alterados de tanto desprezo.

Sem se despedir, o senhor pagou a conta, pegou as compras e se foi. Chovia e pude ver um jovem dividir o guarda-chuva para que ele caminhasse até o carro. Eles não se conheciam. Gentil, o rapaz ainda ajudou a ajeitar os sacos no porta-malas. O homem que odiava Brasília agradeceu, deu ré e saiu com uma velocidade acima da permitida para o estacionamento. Vi também que ele não parou na faixa, onde uma senhora sem guarda-chuva acenava com a mão para que fosse exercido o seu direito de pedestre. O homem passou direto, certamente com muito ódio. Eu, que fiquei calado o tempo todo, rompi o silênci e fiz um pedido aos céus.

– Por favor, tire esse senhor desta cidade.

Buritinga é 1º passo para criar novo estado

Buritinga é 1º passo para criar novo estado (fonte: http://www.secom.unb.br/bcopauta/sociologia17 )

Mudança da sede do governo do DF indica autonomia política e econômica de Taguatinga para ser a capital da unidade

DAIANE SOUZA
Da Secretaria de Comunicação

 
 

Em 2008, a sede do Governo do Distrito Federal foi transferida do Palácio do Buriti, no Plano Piloto, para a cidade-satélite de Taguatinga, em um edifício agora  chamado de Buritinga. De acordo com o governador José Roberto Arruda, esse foi o meio encontrado para que o poder estivesse mais próximo de seu foco: as cidades-satélites.

Segundo o sociólogo Sérgio Henrique Sampaio de Sousa, a escolha de Taguatinga para sediar o governo local comprova a autonomia econômica e o potencial político desta região administrativa (RA) para governar as demais cidades satélites. A conclusão consta no seu estudo Autonomia, descentralização e representação política no DF: o caso de Taguatinga.

Para Sousa, a criação do Buritinga pode ser o primeiro passo na formação de um novo pólo gravitacional do DF. Atualmente, 70% da população do Distrito Federal trabalha no Plano Piloto e em Taguatinga. Com a mudança da sede houve um aumento significativo de atenção voltada ao melhor aproveitamento dos recursos para o desenvolvimento industrial, dos serviços e da agricultura nas RAs, tendo Taguatinga como centro econômico.

RIQUEZAS – A pesquisa se concentrou no levantamento de dados econômicos sobre quanto cada satélite produzia e quanto lhe retornava em recursos, com o objetivo de provar que existe a possibilidade de Taguatinga ser o principal centro administrativo das RAs desde que as cidades sejam transformadas em municípios. A mudança teria o poder de descentralizar as responsabilidades assumidas por Brasília enquanto capital federal e centro administrativo do DF.

Como as regiões administrativas não são consideradas municípios, a ausência de representatividade político-social prejudica seu potencial de desenvolvimento, e as destinam a orbitar econômica, política e institucionalmente ao redor do Plano Piloto.

ORIGEM – Sousa defende que a grande falha aconteceu na década de 1980, ao não se eleger representação municipal quando foi definida a representação estadual. “Em Brasília os administradores não têm mandato nem orçamento. O caixa da cidade como capital e como região administrativa junto às satélites é único”, explica.

A situação pode ser reversível. O estudo sugere a transformação das RAs em municípios. Seria uma oportunidade administrativa de se gerar mandatos e orçamento direcionados à melhoria de estrutura, indústria e serviços local.

GDF assumiu incumbências de centro administrativo

O Distrito Federal é o único lugar do Brasil onde não há eleições municipais para prefeitos e vereadores. Isso porque Brasília, criada para abrigar o poder político nacional, deveria ser uma única cidade. Segundo o plano original do urbanista Lúcio Costa, era previsto o surgimento de novos centros urbanos somente dez anos após a inauguração da capital. Ou seja, não existiriam municípios dentro do DF.

No entanto, após o crescimento populacional  não planejado em diferentes áreas, Brasília assumiu também a condição de centro administrativo das cidades que surgiram ao seu redor. O DF passou a ser dividido em Regiões Administrativas (RAs), ou cidades-satélites, que não possuem representação municipal. Quem administra todo o bloco é o governador do Distrito Federal.

 

CONTATO
Sérgio Henrique pelo e-mail serginsousa@gmail.com

Abertura dos Arquivos da Ditadura

Governo definirá nos próximos dias critérios para abrir documentos da ditadura, diz ministro

 

O governo prepara para ainda este ano a abertura dos arquivos relativos ao período da ditadura. O ministro interino Luís Paulo Teles Barreto (Justiça) afirmou nesta sexta-feira que nos próximos dias serão definidos os critérios para a abertura dos documentos. Porém, Barreto disse os arquivos considerados secretos e ultra-secretos serão mantidos sob sigilo para segurança do Estado.

 

“Nós próximos dias nós teremos um avanço a respeito disso”, afirmou o ministro, que participou de uma sessão de julgamento da Comissão de Anistia, realizada na sede da CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil).

Barreto afirmou que um grupo coordenado pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) já está em fase de conclusão dos estudos sobre a abertura dos arquivos. Mas o ministro ressaltou que os documentos caracterizados como secretos e ultra-secretos serão preservados da revelação pública de detalhes.
“[Os estudos são para que] todos os documentos públicos possam ser abertos e dar acesso à população, ressalvando aqueles que, porventura, podem ser secretos e ultra-secretos que deve ser mantidos [preservados] por interesse de segurança do Estado. Mas esse assunto está em avançado estágio de discussão e devemos ter em breve uma solução”, afirmou Barreto.
O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) reclamou da falta de informações por parte das Forças Armadas. Segundo ele, apesar do apelo de Dilma Rousseff para que fossem enviadas informações sobre os registros ocorridos no período da ditadura, os dados não foram remetidos sob a alegação de que “não havia informações”.
“Isso realmente não convence”, afirmou ele, que também participou da reunião na CNBB. Vannuchi disse que os esforços para a abertura dos arquivos são para buscar dados e fazer justiça e que não há um sentimento de revanchismo nem de vingança por parte do governo.
“Ninguém pode ser movido pelo ‘olho por olho e dente por dente'”, afirmou o ministro. [Trabalhamos] sem o sentimento de revanchismo e vingança”, disse.
Segundo Vannuchi, o ministro Nelson Jobim (Defesa) está empenhado em obter os dados referentes aos registros militares do período da ditadura e remetê-los à comissão que organiza a abertura dos arquivos
da ditadura.

Fonte: Folha Online, 26/09/2008

Sílvio Holenbach

Lendo o Jornal hoje, me lembrei de uma história que marcou Brasília, apenas de ainda nem ter nascido na época, lembro-me de perguntar a meu pai em visita ao zoológico, quando criança, quem era “aquele homem na estátua”. Esse homem foi um heroí chamado Silvio Delmar Holembach que foi protagonista de um episódio trágico que  tornou a ariranha, um mamífero aquatico, em um dos mais conhecidos do Zoológico de Brasília: a morte do sargento do exército Silvio Holembach, 33 anos, que hoje dá nome ao Zôo. No dia 28 de agosto de 1977, Silvio passeava com a família no Zoológico, comemorando o último dia do vestibular que prestou na UnB. Na saída, percebeu o burburinho e os gritos em torno do fosso das ariranhas. Um menino havia caído o tanque e estava sendo atacado pelos animais. O sargento pulou na água suja e conseguiu salvar o garoto Adilson Florêncio da Costa, 13 anos. Mas foi retirado do local com mais de cem mordidas e arranhões. Levado ao Hospital da Forças Armadas porém, morreu de infecção generalizada dois dias depois de ser internado.

Fica aqui minha homenagem a esse verdadeiro heroi candango, que jamais deve ser esquecido, pois abdicou da sua vida para salvar uma criança!!!

“Herói. Morto. Nós (Correio Braziliense, 19/09/08)
<!––>

Conceição Freitas
conceicao.freitas@correioweb.com.br

 

Esse foi o título da crônica de Lourenço Diaféria, o jornalista de São Paulo que morreu terça-feira passada. O herói a quem o cronista se referia, no já distante 1977, era um herói brasiliense. Trocou a própria vida pela vida de outrem.

O herói de verdade, diz a mitologia, é filho de um deus ou uma deusa com um reles mortal. É um semideus — não daqueles que se acham, desses há muitos por aí. É um exemplar legítimo de um ser meio humano, meio divino. Divino porque atravessa a nossa pobre condição humana para experimentar a dimensão do sagrado, do incorpóreo, do imortal. Humano porque é, como nós, de carne e osso, pele e sangue.

A crônica do Diaféria declarava o espanto do jornalista para com o ato heróico de Sílvio Holenbach. Para quem não se lembra ou não tem conhecimento, Holenbach foi o sargento que pulou no recinto das ariranhas para salvar uma criança de 13 anos: salvou o menino e dias depois morreu em conseqüência de centenas de mordidas do bicho que parece um peixe, mas é um mamífero carnívoro de tão má-fama que em algumas regiões tem a alcunha de onça-d’água.

Diaféria irritou os militares porque punha Duque de Caxias debaixo da sola do sapato e alçava Holenbach ao pódio dos grandes e verdadeiros heróis. Naquele período, a ditadura vicejava, já sem a ferocidade do final dos anos 60 e começo dos 70, mas ainda vivíssima. A confusão foi grande, o cronista foi preso e processado e bem mais tarde absolvido.

Relendo a crônica Herói. Mortos. Nós, reencontrei algo para além da indignação política, do panfleto contra a ditadura — gesto de muita coragem, ressalte-se. Há algo mais no texto de Diaféria.

Holenbach passeava com a família — a mulher e quatro filhos — no zoológico, quando ouviu gritos. Eram pedidos de socorro para o garoto que estava sendo comido pelas onças-d’água. O sargento parou o carro e correu na direção dos gritos. A mulher dele, Eni, parece ter previsto o que o marido faria: “Não vai, não vai. Volta aqui”. Foi. Salvou. Morreu.

Diaféria: “Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói — como o santo — é aquele que vive sua vida até as últimas conseqüências.”

Silvio Holenbach agiu como o pai dos filhos do mundo. Naquele instante muito provavelmente não-pensado, ele se colocou no lugar do outro humano (uma criança, como seus quatro filhos) e não conseguiu sobreviver à idéia de que ele estava sendo comido pelas ariranhas. Foi um herói.

“O herói redime a humanidade à deriva”, escreveu Diaféria. “O herói e o santo é o que estende as mãos”. E concluiu: “E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis — tarde demais.”